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Arquivo da tag: Teatro

sobre o pianista

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uma cortina vermelha, um terno café. Frio desgraçado, piano preto e gosto de amora na boca.

(    )

O pianista zagueia só sua mão esquerda – faz

silêncio.

toca grave – toca sombra

tristeza jeca de um

[este ouviu]

outro criado

aqui fazer silêncio em um

piano

de calda por toda madeira

da sala para 100.

dez segundos entre a última nota e (os aplausos a estragar o que restou

da música

da madeira

da sombra).

(desenho dado e dedicado a André Mehmari)

ainda a cena de ribeirão

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Sobre três vertentes, ainda de riberão.

CAUIM: O cine Cauim, encampado pelo grande Cachaça é uma mostra de que algo pode ser feito com muito sucesso. É uma iniciativa fantástica e já consolidada. Mas ainda falta uma generalização de um clima aberto a coisas novas e autêntica em outros lugares. Dublin foi retratada por Joyce em suas pessoas mais comuns. E o que era Dublin naquela época, meu Deus do Céu? Uma cidade que mereceu a homenagem de um  gênio, com sinceridade, mas que também era apenas uma cidade, como é Ribeirão.

CASAS NOTURNAS e BARES: A Vila Dionísio é uma casa de respeito, um pub muito gostoso, mas nada mais faz que dar espaço a quem já tem muito espaço: músicas consagradas, ritmos importados, etc., etc –  a casa tem seu lugar, mas nada muito importante para o que vejo como necessário. O Bronze, por outro lado, tem potencial, mas ainda engatinha.

TEATRO e CINEMA: O Teatro Dom  Pedro II tem apresentações em sua esmagadora maioria vindas de outras partes do país.Eu adoro o Teatro de Arena, mais ainda faltam peças adequadas àquele espaço.

A sinfônica toca apenas peças consagradas e repetidas para alguém com alguma experiência em concertos. Mas esta eu não culpo, pois são as grandes sinfonias que uma cidade ainda sem uma cultural de Teatro precisa. Ouvir a quinta ou a nona de Beethoven a primeira vez ao vivo é excepcional. Karlheinz Stockhausen não seria suportado em Ribeirão por nem 5 ouvintes. Estaria eu enganado, sendo duro demais?

A companhia de cinema Kaiser ainda tem muito o que mostrar, e acho que irá mostrar.

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Assim, o que falta é assumir a condição de caipira e de capitalista desigual. Os artistas existem, e têm de se unir, mas a abertura e o incentivo ainda são mesquinhos.

O excelente é, apenas e infelizmente, o chopp, a cerveja colorado e o Cauim.

Sobre a cena de Ribeirão Preto

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Ribeirão é uma das grandes cidades do país e, descontadas as cidades da grande São Paulo e Campinas, a maior cidade do interior do estado. É, também, uma das regiões mais ricas, embora seu modelo ecoônomico gere claras desigualdades, o que se pode constatar com as favelas existentes na cidade, a maioria bem recentes.

Contudo, não é por conta disto que Ribeirão tem uma cena cultural decente. Ao contrário, é uma cidade com mentalidade mais próxima de uma pequena cidade do que de uma com 700 mil habitantes. Kleinstadt-Mentalität, como diria um outro.  Há pequenas cidades da região que possuem uma vida cultural muito mais intensa e autêntica do que Ribeirão, como Santo Antônio da Alegria, por mais incrível que isto possa parecer.

Digo autêntica por que Ribeirão Preto ainda não encontrou um caminho cultural próprio, não possui nenhuma manifestação cultural que represente a importância da cidade, embora nesta opinião o caldo para esta composição seja enorme.

A rotina do chopp em bares muitas vezes sem música é uma mostra disto: há jovens músicos com boas bandas e que não têm nenhum espaço para mostrarem o que de mais importante  há para um artista.

Para mim, é ridículo ver o saudosismo que alguns têm com a ”boa música” brasileira, ou seja, Jobim, Caetano, Chico, Elis, Milton etc. etc. etc. São estes monstros inspiradores, mas não foram deuses. O Caetano, por exemplo, fez nesta opinião dois álbuns recentes espetaculares, principalmente Zii e Zie, mas NUNCA ouvi suas músicas tocadas nestes bares e casas noturnas de Ribeirão – só se ouve um leãozinho. Ribeirão ainda não conseguiu entender a grandeza de Portinari (que nasceu ali muito perto), que pintou seu mundo, seu mundo que também é o mundo.