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Sobre a Pessoa do imperador

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Art. 99. A Pessoa do Imperador é inviolavel, e Sagrada: Elle não está sujeito a responsabilidade alguma.

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 Assim dizia (opa, perdão, dispunha) a Constituição do Brasil de 1824.
Era ali claro: o poder moderador era “do cara”, e era sagrado.
A constituição de 1824 é muito interessante. E das coisas mais interessantes é vermos que ainda estamos na mesma merda, para usar uma palavra academicamente gaulesa.
Temos este ranço autoritarista de vermos no Executivo o grande chefe, e isto não se resume aos prefeitos, governadores e presidente. O chefe, o gerente, o coordenador, etc., são vistos por muitos como invioláveis e “os caras” da respectiva instituição.
Muitos chefes, bem que se diga, também gostam muito de ser “os caras”, a cabeça do livro de Hobbes.
E só para falar mais da constituição do império, diga-se que não há nem uma linha sequer sobre a escravidão.
É o silêncio perturbador, é o grito silencioso, é o espectro que ainda ronda o Brasil – para 1988, ninguém passa fome.
É constituição bonita, bem articulada. Parece francesa. Mas tem o poder moderador estampado, e não há nem sinal do tráfico e da brutal exploração dos africanos.
Veja: em tempos de perseguição brutal, era assegurada a liberdade de culto:
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        Art. 5. A Religião Catholica Apostolica Romana continuará a ser a Religião do Imperio. Todas as outras Religiões serão permitidas com seu culto domestico, ou particular em casas para isso destinadas, sem fórma alguma exterior do Templo.

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 Data de nossa primeira constituição a cara de pau e a peroba constitucional brasileiras. Não apenas dos políticos, diga-se.
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Como trocar as cordas de um violão

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É um ritual dos mais interessantes.

Ganhei meu primeiro violão, um Di Giorgio 16, quando tinha 12 anos (1994). Não comi nada no Natal de birra, pois meu pai havia prometido que me daria e, como de costume, não o fez. Depois da greve de fome, do choro e etc., meu tio comprou o violão, e fingi que acreditei que tinha sido meu pai.

No começo, quando trocava as cordas guardava as antigas de recordação, e depois de uns dois anos achava num armário velho. Escolhia muito bem qual seria a primeira música a ser tocada com as corda novas – achava que a origem da música nas cordas orientaria o sucesso ou o fracasso da temporada com aquelas cordas, até que elas oxidassem e precisassem ser trocadas.

Nunca gostei, porém, de trocar cordas.

Gosto apenas de retirar as cordas e ver meu violão nu, como uma mulher nua em uma cama, aparentemente desamparada. Pego o violão e há 16 anos procedo os seguintes passos:

1 – Violão nu, uma limpadinha pra tirar o pó.

2 – Passo lustra-móveis.

3 – Deixo o violão de lado, absorvendo o produto.

4 – Escolho o pano mais macio da casa – geralmente as flanelas não estão adequadamente macias.

5 – Lustro.

6 – Seco, Passo óleo de peroba.

Aqui é a etapa mais interessante. O óleo de peroba é feito, segundo me ensinaram, apenas para madeira maciça – para compensados, mdf e etc. é inútil. O violão bom ganha outros rasgos e nervuras típicos de madeira, e renasce.

7 – Quando posso, deixo o violão amanhecer com o óleo de peroba, ou pelo menos algumas horas bebendo do óleo.

8 – Lustro com aquele mesmo paninho, geralmente de roupa de algodão velha.

9 – (A pior parte) Coloco as cordas.

10 – Sempre erro alguma coisa nesta etapa.

11 – O telefone me dá um lá. Afino a corda lá, que desafina, e torno a pegar o telefone. Repito isto por uma hora, mais ou menos, até o violão e os trastes acostumarem-se à nova tensão.

As três cordas mais agudas (sol, si e mi) são as que mais dão trabalho.

Gosto de Augustine Blue ou de Hannabach. Não gosto das D’addario.

Toco minha viola.

—– PS: A primeira música hoje, com o novo encordoamento Augustine Blue (Regals) foi “Pale blue eyes” – poucas e boas notas, um pouco de melancolia, vendo Palermo Shooting, de Win Wenders.

viola

novas cordas