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Arquivo da tag: Otto

sobre o otto, novamente

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Ninguém tinha dinheiro pra ir ver o Jorge Ben, ontem. Assim…

Ontem tive uma ótima noite: vinho, amigos em casa, filhos rodeando, uma mulher maravilhosa, e mais vinho.

Eu tenho meu espelho cristalino que uma baiana me mandou de Maceió.

Um dos álbuns que ouvimos foi o do Otto, que a Giu disse que adora. Lembrei que outro dia cheguei em são paulo, fui comer na padoca de sempre, e ouvi uma música deste último álbum na novela.

Olha, o disco é triste demais pra qualquer novela. Mas tudo bem, não lembrava nem que música era. Falamos de novelas e das músicas, e o entendimento foi de que não há nada de mais em se ter uma música na novela, desde que o foco principal não seja aquele, ou seja, de que a música seja feita para-tocar-na-novela.

Ao ouvir novamente o cd, percebi: era “há sempre um lado que pese, outro lado que flutue”.

É “crua”, a música de abertura. Acontece que a coisa ficou esquisita, pois o Otto usa o verbo “foder” na letra. Acho que foder não é palavrão, mas seria considerada palavra no mínimo ofensiva aos ouvidos da Grobo.

Fui pesquisar no gúgol e…

O Otto trocou a palavra “fodia” por “podia” pra-tocar-na-novela.

Sei que o cara tem que ganhar sua grana, que quer ser ouvido, que não se pode simplesmente desprezar a audiência novelística como um bando de imbecis…. mas….

Mudar letra de música linda vale?

Bem, acho que o pernambucano trocou os pés pelas mãos e fudeu a música (discurpa, tava no ar a piadita).

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Ainda sobre o Otto

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Escrevi outro dia minhas opiniões sobre o álbum novo do Otto. Mas fiquei pensando: qual o espaço teria Otto se fosse de Ribeirão Preto?

Pode parecer besteira, mas acho que Otto, se chegasse a fazer música, teria de se mudar para São Paulo para se apresentar mais que uma vez por ano em uma cidade, não é?

Meus amigos, digo isto por que temos que escolher (pelo menos as pessoas que gostam de música), os caminhos os quais nos levarão Ribeirão. Temos que parar de sermos colônia de outras culturas. O caldo regional é rico e pode dar frutos, e temos que canalizar as energias para produção de uma arte original e daqui: caipiras, usinas de cana, mendigos, pessoas que não sabem dirigir, álcool, universidades, mercadão, Caramuru cruzando com a João Fiúsa. Etc.

E isto vale para muitas outras cidades do interior paulista que conheço, como Franca, São José do Rio Preto, Presidente Prudente, e outras. Estamos em débito com o Brasil.

Macunaíma em um quarto escuro

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OTTO

Certa manhã acordei de sonhos intranquilos

Após seis anos de silêncio e tentativa de desvencilhamento das drogas, e após a separação com a mulher Alessandra e a morte da mãe, surge o disco de Otto “Certa manhã acordei de sonhos intranquilos”, lançado sem a gravadora Trama, com a qual rompeu. Pelo que li, foi lançado na gringolândia primeiro, e só depois de seis meses aqui nestes tristes trópicos.

Acho que tenho um problema, neste e no outro blog, com elogios. Sou desses caras chatos, que raramente gostam bastante de alguma coisa e desprezam solenemente a maioria das bobagens que tanto fazem a cabeça de boa parte da comunidade da blogsfera em geral, como o seriado Lost, um Ipad (?) e um livro de Paulo Coelho. Quando gosto de algo, por outro lado, gosto mesmo.

O álbum de Otto está demais. É o melhor que ouço da produção nacional em anos. É um álbum repleto de sinceros desabafos, acoplado a uma sonoridade atrás da melancolia que dá o ritmo do disco que é de muita qualidade. Ouvem-se tambores (vê “Agora sim”), ouvem-se metais bem conduzidos (vê “Janaína”), batidas eletrônicas (vê “Meu mundo”), ouvem-se guitarras dos anos de 1970 (“6 minutos”), ouve-se um sotaque mexicano de Julieta Venegas em “lágrimas negras”….

É tanta coisa ao mesmo tempo que se pode afirmar que o álbum não tem caráter. É como vejo, mesmo: um álbum sem caráter, e este molho faz um Macunaíma da recente cultura tupiniquim.

As composições (até para morrer você tem que existir … mas eu te juro, são flores de um longo inverno… isto é pra morrer – seis minutos) são maduras. Otto é um maluco maduro. Ser maduro não significa ser chato, não significa ser velho, não significa que o sujeito está emocionalmente estabilizado, não tem praticamente nenhuma diferença com ser um imbecil feliz de 17 anos (como eu era), a não ser uma: você faz a maioria das coisas já sabendo das consequências, você já consegue organizar melhor suas loucuras porquê você está há muito tempo com você mesmo.

Minha música preferida é “6 minutos”: Otto é autêntico e sincero; é um artista, mesmo, desses que teriam muitos cânceres se não cantassem e que preferem desafinar a não cantar. Nesta música a culpa não é da outra pessoa, mas as promessas que se faz de alguma maneira estão com o teve a promessa.

10 faixas primorosas. Tem até “naquela mesa”, com um quê de brega: eu não sabia que doía tanto, tanto.

É triste, sem dúvida, é pra baixo, sem dúvida, e o canto do quarto escuro de otto não parece que será facilmente iluminado. A música é sua terapia, e espero que esteja melhor agora.

Franz Kafka é adequado, realmente. Os sonhos intranquilos da metamorfose transformam não a lagarta numa borboleta, mas um homem em uma barata. A diferença, aqui, é proporcionada pela música, pela arte: o sujeito é obrigado a sair do quarto de hotel para expor suas melodias. O outro caminho, único outro caminho admissível, seria o suicídio.