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sobre morrer todos os dias – Amy Winehouse

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A NORMAL DAY FOR BRIAN

(PETE TOWNSHEND)

I used to play my guitar as a kid
Wishing that I could be like him
But today I changed my mind
I decided that I don’t want to die
But it was a normal day for Brian
Rock and Roll’s that way
It was a normal day for Brian
A man who died every day.

amy winehouse alive

amy winehouse viva

Morrer todos os dias é algo normal para os seres humanos. Ora, a cada dia boa parte de nossas células se vão e outras nascem, mas o saldo é para a morte.

É a morte que dá sentido mínimo à vida. Os vampiros, os lobisomens e os outros deuses que pegavam as humanas no Gênesis não sabem o que é isso. Se houver deus, ele mesmo não sabe o que é o tempo.

Entender que estamos juntos “até que a morte nos separe” é uma das poucas coisas que ouvimos de decência em um casamento. Seremos até não sermos mais nada e, assim, somos um ser para o nada, como dizia aquele alemão.

Vale mesmo a pena o modo pelo qual vivemos, os objetivos de vida. O que faremos. Um fim de semana em casa vendo televisão é uma boa receita para tentar apagar a certeza da morte, este tabu nos tempos imediatos, em tempos em que o momento é tão vital que o correr do tempo possui muito pouca importância.

O que essa moça fez foi excelente. Sem viver desesperadamente, sem morrer muito a cada hora, ou seja, se vivesse feito uma burguesa que assiste a três novelas diárias, estaria provavelmente vivinha. Viva e mais podre que agora como todos.

O papo anti-substâncias-que-fazem-mal-ao-corpo-burguês é dos mais imbecis e conservadores, neste específico caso. Quando se gosta de alguém ou de sua arte não se separa seu corpo como se separa as peças de um motor de um carro.

O corpo de Amy é o corpo que fez “back to black” e “Frank”, e não “outra” Amy.

Seu corpo era seu: um corpo faminto, vermelho, pintado e encharcado.

a eleição é uma festa

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Vinha no meu carro, nos meus 40 minutos diários de purgatório auditivo, e era horário eleitoral gratuito (7 da matina).

Jurava que era uma festa. Com exceção do PCO, PSTU e PCB, os canditados se apresentavam com musiquinhas ridículas e falavam ao meu ouvido como se fosse uma criança, como super heróis que vieram para combater o mal.

Até entendo alguns, com exíguos segundos para falar, e que não podem fazer outra coisa senão:

“Sou Dr. Januário. Você que é artista e jovem, vote em mim”

ou

“Pela saúde, Dr. Januário 0980983”.

Mas tem uns que não dá pra suportar:

“Yuhhhuuu! Tá chegando a hora! Sou um apresentador de TV canastrão que só sabe fazer gincana. Por isso, vote no meu filho …”

ou

“OOiiiiiii galera! Sou um repórter de TV canastrão, e preciso do seu voto pra ser mais canastrão ainda em Brasília”

Sem contar aqueles que nada dizem, apenas pedem voto pro chefe:

“Sou Dr. Januário. Estou com Fulano, grande homem, grande pai e canditato a Führer de nosso país. Vote nele”.

ou pior:

“Olá, você já me conhece. Farei a mesma coisa que Cicrano fez. Quem me ensinou foi Mussolini”.

Há também os postes:

“Eu fui ministro de Sicrano, que mudou o país. Como ele não pode mais se candidatar, e como eu não tenho história pública, acabei de me filiar a este partido e ajo como um poodle treinado, vote em mim pensando nele, como você faz com sua mulher, com quem você transa pensando na Pamela Anderson”.

E tome musiquinha.

E  mais musiquinha.

O Tiririca pelo menos admite que é palhaço.

Pensando melhor, se for uma festa, tá mais pra Bacanal, orgia e putaria. Imaginem aqueles bigodudos dótôres de direito a se beijar e rolar pelos estúdios, produzindo dúzias de novos politicozinhos, tudo ao som da cavalgada das Valquírias.

espaço cultural a coisa

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Φ À beira do penhasco, com a velha cidade a te olhar, com a câmara dos deputados e a vila tibério a te olhar, conheci um lugar realmente especial em Ribeirão Preto. “A Coisa” tem vários ingredientes que podem dar caldo bom, principalmente neste comecinho de frio – e não sei como ainda não conhecia esta casa.

Além da vista espetacular de Ribeirão, o pessoal predominantemente universitário e em geral um pouco mais velho do que se encontra em muitas baladas (o que é bom) faz com o clima seja de paz e de festa ao mesmo tempo. Isto em função de haver ambinetes externos os quais permitem uma boa conversa ao pé do ouvido, sem se incomodar com a música lá dentro.

Em tempos de calor a coisa deve ser mais complicada. O teto é baixo, e deve cozinhar as pessoas – este é o aspecto ruim que ao mesmo tempo dá aquele clima underground, como me lembro em casas paulistanas como a borracharia (o piso superior), Tapas Club (também o piso superior), e aqueles lugarzinhos de Perdizes ao lado da PUC em que se jogava bilhar.

Este post começou falando do penhasco. O desfiladeiro que salta aos olhos é recheado de árvores e dá uma estranha sensação, parece que a vida está ali naquele escuro e naquelas árvores mal iluminadas. O que nos ampara nesta casa é um simples amparo de concreto. A beira do penhasco é curta, mas não é estreita.

Vale muito a visita, e vou acompanhar alguns outros eventos para ver como é o esquema mesmo. A banda que tocou, Chic Hernandez, é de amigos meus e, assim, não posso fazer comentários nem perto de imparciais. Deixo apenas um salve para as meninas do “Pé na tábua”, do sapateado, que deram um ar encantador à noite, com momentos de poesia.

A coisa

http://espacoacoisa.blogspot.com/

rua Amador Bueno, 1300

Pertinho do Conservatório Vila Lobos , no final da nove de julho.

ida em 09 de abril de 2010

ainda a cena de ribeirão

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Sobre três vertentes, ainda de riberão.

CAUIM: O cine Cauim, encampado pelo grande Cachaça é uma mostra de que algo pode ser feito com muito sucesso. É uma iniciativa fantástica e já consolidada. Mas ainda falta uma generalização de um clima aberto a coisas novas e autêntica em outros lugares. Dublin foi retratada por Joyce em suas pessoas mais comuns. E o que era Dublin naquela época, meu Deus do Céu? Uma cidade que mereceu a homenagem de um  gênio, com sinceridade, mas que também era apenas uma cidade, como é Ribeirão.

CASAS NOTURNAS e BARES: A Vila Dionísio é uma casa de respeito, um pub muito gostoso, mas nada mais faz que dar espaço a quem já tem muito espaço: músicas consagradas, ritmos importados, etc., etc –  a casa tem seu lugar, mas nada muito importante para o que vejo como necessário. O Bronze, por outro lado, tem potencial, mas ainda engatinha.

TEATRO e CINEMA: O Teatro Dom  Pedro II tem apresentações em sua esmagadora maioria vindas de outras partes do país.Eu adoro o Teatro de Arena, mais ainda faltam peças adequadas àquele espaço.

A sinfônica toca apenas peças consagradas e repetidas para alguém com alguma experiência em concertos. Mas esta eu não culpo, pois são as grandes sinfonias que uma cidade ainda sem uma cultural de Teatro precisa. Ouvir a quinta ou a nona de Beethoven a primeira vez ao vivo é excepcional. Karlheinz Stockhausen não seria suportado em Ribeirão por nem 5 ouvintes. Estaria eu enganado, sendo duro demais?

A companhia de cinema Kaiser ainda tem muito o que mostrar, e acho que irá mostrar.

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Assim, o que falta é assumir a condição de caipira e de capitalista desigual. Os artistas existem, e têm de se unir, mas a abertura e o incentivo ainda são mesquinhos.

O excelente é, apenas e infelizmente, o chopp, a cerveja colorado e o Cauim.

Sobre a cena de Ribeirão Preto

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Ribeirão é uma das grandes cidades do país e, descontadas as cidades da grande São Paulo e Campinas, a maior cidade do interior do estado. É, também, uma das regiões mais ricas, embora seu modelo ecoônomico gere claras desigualdades, o que se pode constatar com as favelas existentes na cidade, a maioria bem recentes.

Contudo, não é por conta disto que Ribeirão tem uma cena cultural decente. Ao contrário, é uma cidade com mentalidade mais próxima de uma pequena cidade do que de uma com 700 mil habitantes. Kleinstadt-Mentalität, como diria um outro.  Há pequenas cidades da região que possuem uma vida cultural muito mais intensa e autêntica do que Ribeirão, como Santo Antônio da Alegria, por mais incrível que isto possa parecer.

Digo autêntica por que Ribeirão Preto ainda não encontrou um caminho cultural próprio, não possui nenhuma manifestação cultural que represente a importância da cidade, embora nesta opinião o caldo para esta composição seja enorme.

A rotina do chopp em bares muitas vezes sem música é uma mostra disto: há jovens músicos com boas bandas e que não têm nenhum espaço para mostrarem o que de mais importante  há para um artista.

Para mim, é ridículo ver o saudosismo que alguns têm com a ”boa música” brasileira, ou seja, Jobim, Caetano, Chico, Elis, Milton etc. etc. etc. São estes monstros inspiradores, mas não foram deuses. O Caetano, por exemplo, fez nesta opinião dois álbuns recentes espetaculares, principalmente Zii e Zie, mas NUNCA ouvi suas músicas tocadas nestes bares e casas noturnas de Ribeirão – só se ouve um leãozinho. Ribeirão ainda não conseguiu entender a grandeza de Portinari (que nasceu ali muito perto), que pintou seu mundo, seu mundo que também é o mundo.

Sobre a cena da augusta – Druques

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Ouvi um par de bandas naqueles bares da Augusta no ano que recentemente acabou, 2009.

Falarei hoje de uma banda chamada Druques: http://www.myspace.com/druques

Não a conhecia, e me impressionou muito ao vivo: energia, instrumentos com personalidade, bem ensaiados; o vocalista apenas cantava sem grandes pretensões e não ficava enchendo o saco passando uma mensagem para mudar o mundo, o que não caberia naquela hora.

Ao passar das semanas fui ouvir a produção desta banda em estúdio. A influência que pelo adiantado da hora não era tão óbvia é clara demais: trata-se de uma tentativa de tocar Strokes em português – o que não teria nada de errado, a não ser que se trata de uma banda talentosa e que possui capacidade de fazer algo mais inovador do que fez.

O vocal é distorcido como o do Casablancas. A guitarra tem aqueles solinhos despretensiosos ao ritmo certinho da bateria, que é conduzida por um humano tocando como computador. E as letras são legais, com certa sinceridade juvenil (tipo “penso em em matar”), o que combina, orna.

É, portanto, legal, mas parecido demais com Strokes, e depois de um tempo para quem ouviu tanto a banda de Nova York o grupo paulistano fica enjoativo. Não dá pra ouvir mais do que duas vezes.