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Arquivo da tag: mestrado

sobre o que aparece

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o poeta pobre - Spitzweg

o pobre poeta - Spitzweg

Sei que é comum, mas houve um dia em que o estudo parecia-me absolutamente entediante. Não conseguia, no meio de minha loucura com chuva de cinzas de cana, ver sentido em sentar em uma cadeira e estudar.

 

Estudo para compreender melhor meu mundo. Existem outras formas de se compreender o mundo, eu sei, mas minha aptidão dirigiu-se para o mar dos que não têm muito talento, mas sim muita vontade e paciência (o que faz urgir dezenas de almofadas de cadeira).

O tempo do estudo é lento, bem lento. A pressa é inimiga desta lentidão.

Simon Bolívar queria a união dos povos latino-americanos ou queria uma revolução francesa macaqueada em uma terra imensa povoada por escravos da África e índios da America? Não foi ele mais um a querer europeizar?

Bem, isto não é uma afirmativa: é uma pergunta. O apressado talvez parasse na primeira frase.

O tempo é a única diferença de quando se escreve algo acadêmico  – mas um velho analfabeto não possuiu este tempo? E este analfabeto não conta oralmente de forma bela seu tempo? Não possuiu, em verdade, outro tempo, já que sua língua não é a mesma que a minha e, assim, sua realidade é outra?

Ok, não sei qual é a diferença.

 

Acho que vou pro doutorado, para poder não saber mais ainda ou descobrir porra nenhuma – sei só que o mundo dá uma mexidinha quando a gente se comunica.

 

sobre a defesa de mestrado

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Herói

 

Regressa da Europa Doutor Oliveira

É dia de festa na cidade inteira

Doutor Oliveira fez longa viagem.
Maior, mais brilhante ficou sua imagem.

Viajou de cavalo, de trem, de navio.
Foi bravo, foi forte, venceu desafio.

Falou língua estranja, que não percebemos.
Ergueu nosso nome a pontos extremos.

Conversou doutores de barbas sorbônicas
e viu catedrais, jóias arquitetônicas.

Papou iguarias jamais igualadas
nas jantas mais finas: consommés, saladas,

ovas de esturjão, e pratos mil flambantes,
que aqui falecemos sem conhecer antes.

Praticou mulheres das mais perigosas,
ofertou-lhes mimos, madrigais e rosas.

Nenhuma o prendeu entre grades de seda.
Volta o nosso amigo, livre, de alma leda.

Tudo há de contar-nos à luz do lampião,
para nosso pasmo e nossa ilustração.

Depressa, cavalos e arreios de prata,
que vai esperá-lo o povo bom, a nata.

Da cidade às portas, como triunfador,
eis chega Oliveira, preclaro doutor.

Ginetes aos centos correm a saudá-lo.
Foguetes, discursos e até o abalo

de tiros festivos no azul eta nós!
dados por Janjão e por Tatau Queirós.

Pois quem destes matos foi até Paris
honrou nossa terra, deu-lhe mais verniz.

E assim, ao apear, desembarca na História
Doutor Oliveira, para nossa glória.

(Carlos Drummond de Andrade)

Como a ironia fina não é meu forte, deixo-a expressa.

Tudo passa, tudo passará

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Janela lateral

vejo uma igreja, um sinal de glória.

 

Novo escritório, fim de um curso, filha com um ano, filho com quase oito. Procuro emprego, na realidade dois empregos.

O ritmo da vida me assusta. Desculpe-me minha pieguice, mas o ritmo da vida me assusta.

 

Nunca mais verei a imagem que via já há sete anos: uma grade, uma rua, uma praça, uns carros parados, pessoas passando e eu no subsolo com um pé-direito de 1,85m, pensando na rua.

 

Não consegui terminar um livro, apenas um conto. Não sei o que vai virar da nova banda. Não sei se farei doutorado. Não sei.

Diziam-me que bastava entrar na faculdade e a vida seguiria seu túnel.

O túnel é circular, e também é espiral.

as cervejas acabaram e os cigarros também

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mesmo com a liberdade.

mesmo que antes tenhamos voado alto.

A vida universitária depois da graduação não é nada colorida – é cinza, é gris, é cor de burro quando foge.

A preocupação com o que fazer é imensa, e parece que quanto mais se estuda mais o mundo parece uma merda. Nada melhorou ou melhorará, e não há nem mais o horizonte, ou seja, algo que é finito mas não tem fim: no fim do horizonte surge outro horizonte.

(e a foto é nossa)