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Arquivo da tag: Kafka

sobre uma ilustração

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Vendo este site aqui penso sobre ilustração, uma forma absolutamente recente e aparentemente “menor” de arte que a pintura de quadros e paredes em castelos e catedrais.

Heidelbach - como ilustrar kafka

Nunca me esquecerei da edição bilíngue de Fausto, editada pela Ed. 34, se não me engano (já me esqueço, portanto). As ilustrações de Delacroix davam uma aura absolutamente fascinante a um livro já fascinante.

Aliás, o título do blog é talvez do desenho que mais tenha me impressionado na vida: O Castelo Animado, de Hayao Miyazaki.

Esta animação é como o Violinista no Telhado: mesmo se não gostar de desenho, tem de gostar do Castelo Animado; mesmo se não gostar de musical, é imperioso gostar do Violinista (“Matchmaker, matchmaker, make me a match, find me a find, catch me a catch” – acho que é isto).

Macunaíma em um quarto escuro

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OTTO

Certa manhã acordei de sonhos intranquilos

Após seis anos de silêncio e tentativa de desvencilhamento das drogas, e após a separação com a mulher Alessandra e a morte da mãe, surge o disco de Otto “Certa manhã acordei de sonhos intranquilos”, lançado sem a gravadora Trama, com a qual rompeu. Pelo que li, foi lançado na gringolândia primeiro, e só depois de seis meses aqui nestes tristes trópicos.

Acho que tenho um problema, neste e no outro blog, com elogios. Sou desses caras chatos, que raramente gostam bastante de alguma coisa e desprezam solenemente a maioria das bobagens que tanto fazem a cabeça de boa parte da comunidade da blogsfera em geral, como o seriado Lost, um Ipad (?) e um livro de Paulo Coelho. Quando gosto de algo, por outro lado, gosto mesmo.

O álbum de Otto está demais. É o melhor que ouço da produção nacional em anos. É um álbum repleto de sinceros desabafos, acoplado a uma sonoridade atrás da melancolia que dá o ritmo do disco que é de muita qualidade. Ouvem-se tambores (vê “Agora sim”), ouvem-se metais bem conduzidos (vê “Janaína”), batidas eletrônicas (vê “Meu mundo”), ouvem-se guitarras dos anos de 1970 (“6 minutos”), ouve-se um sotaque mexicano de Julieta Venegas em “lágrimas negras”….

É tanta coisa ao mesmo tempo que se pode afirmar que o álbum não tem caráter. É como vejo, mesmo: um álbum sem caráter, e este molho faz um Macunaíma da recente cultura tupiniquim.

As composições (até para morrer você tem que existir … mas eu te juro, são flores de um longo inverno… isto é pra morrer – seis minutos) são maduras. Otto é um maluco maduro. Ser maduro não significa ser chato, não significa ser velho, não significa que o sujeito está emocionalmente estabilizado, não tem praticamente nenhuma diferença com ser um imbecil feliz de 17 anos (como eu era), a não ser uma: você faz a maioria das coisas já sabendo das consequências, você já consegue organizar melhor suas loucuras porquê você está há muito tempo com você mesmo.

Minha música preferida é “6 minutos”: Otto é autêntico e sincero; é um artista, mesmo, desses que teriam muitos cânceres se não cantassem e que preferem desafinar a não cantar. Nesta música a culpa não é da outra pessoa, mas as promessas que se faz de alguma maneira estão com o teve a promessa.

10 faixas primorosas. Tem até “naquela mesa”, com um quê de brega: eu não sabia que doía tanto, tanto.

É triste, sem dúvida, é pra baixo, sem dúvida, e o canto do quarto escuro de otto não parece que será facilmente iluminado. A música é sua terapia, e espero que esteja melhor agora.

Franz Kafka é adequado, realmente. Os sonhos intranquilos da metamorfose transformam não a lagarta numa borboleta, mas um homem em uma barata. A diferença, aqui, é proporcionada pela música, pela arte: o sujeito é obrigado a sair do quarto de hotel para expor suas melodias. O outro caminho, único outro caminho admissível, seria o suicídio.