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Sobre as águas subindo

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Michelangelo Buonarotti

a embriaguez de Noé

 

Já vi e trafeguei mais de uma vez em grandes cheias de rios – Paraná, Parnaíba, Pardo. O volume de água é impressionante. Olha-se para qualquer canto e parece realmente que se está no mar e no nada, voando sobre o desconhecido escondido por um espelho.

 

É um convite à reflexão sobre a morte e a vida, sobre os ciclos e sobre a caoticidade desequilibrada do mundo.

 

Não à toa, vários contos surgiram do rio com (ou não) suas enchentes. A terceira margem do rio, Palmeiras Selvagens (ou “o velho”) e, obviamente, a bíblia  – mais para uma imensa enchente que cheia fluvial. É provável que a confluência de vários destes antigos mitos sobre inundações (como na referência encontrada na epopéia – sic – de Gilgamesh), dos quais o Gênesis narra um deles, tenha origem em cheias e enchentes reais, devastadoras à princípio, mas que foram insuficientes para matar toda vida humana.

 

(E o que mais me espantou em todo livro do Gênesis é o fato de Noé (Utnapishtim?), o mais valioso dos homens, o único a ser salvo do dilúvio, ter condenado um filho e neto seus à escravidão por aquele ter avisado seus outros irmãos de que o pai (Ziusudra?) estava completamente embriagado e dando vexame – veja, os hebreus têm em Canaã a terra prometida, e Canaã é o neto amaldiçoado à escravidão como o próprio pai Cam)
 

 

O fato de as civilizações começarem ou estabelecerem-se perto da água possui uma explicação bastante material – a sobrevivência em lugares de alimento abundante ou mais propícios à agricultura, como o delta do Nilo, o lago Titicaca e a Mesopotâmia.

A maneira a qual a água está em nosso inconsciente e em nossa programação genética, em nossa história natural, por outro e pelo mesmo lado, é algo absolutamente fascinante.

Nasci no direito e, assim, não sei das águas.

 

 

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Sobre o processo estético

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Não importa realmente se criar o estético é o que nos diferencia das bestas.

Importa a criação, este quase contato com o indizível que este blog inspirado num austríaco vira e mexe aponta.

Ainda não consegui articular um livro (fora a parte acadêmica), apenas contos. Talvez não seja capaz disto.

Poesias, por outro lado, tenho muitas. Escrevi neste ano um monte. Talvez devesse publicá-las.

Estas poesias surgem muito estranhamente, em momentos absolutamente não poéticos, ou aparentemente sem poesia. É repentino, raivoso como um raio.

A criação musical com a banda, no entanto, articula-se em inúmeros ensaios, os quais fazem com que se perca um pouco daquela espontaneidade inicial da música, o momento em que vagamente se observa um novo som com os ouvidos.

Talvez a melhor forma seja a espontânea, a desarticulada, a que revela o belo no primeiro momento.

Quem concordaria com isso, num tempo de extrema profissionalização e técnica, num tempo em que ou se é digital (1/0, escuro ou não escuro, verdade ou não verdade), ou não se é?

Como disse o outro, entre a dor e o nada, fico com a dor.

Entre o momento e a busca incessante de reduzir o momento ao esperado, ao padrão, ao plano, a Descartes, fico com o momento.

Quem concordaria comigo? Só o Bob, o Dylan.

Sobre tudo o que é sólido

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(Lemmy Caution gegen Alpha 60)

A liquefação de nossas vidas é cantada por alguns dos mais interessantes estudiosos contemporâneos, como Bauman e em certo sentido por Agamben.

Não quero direcionar-me aqui exatamente como estes autores o fazem – trato aqui apenas de meu imenso mundinhozinho, maior que o de R. Crusoe.

É que meu corpo aos poucos se liquefaz.

Não de um jeito comum: não a partir de uma tragédia, uma noite de besteiras, um dia mal dormido.

Pare a cada dia uma luz mais forte que a que já havia e cega a anterior.

(os grupos de estudos acabam, a banda acaba, a música, a viagem, o ontem, o livro, a cocaína, o suicídio).

sobre usar cocaína

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Algo de muito estranho ronda as noites do interior.

Sempre soube e vi o uso de drogas por aqui. Vi maconha, cocaína, ecstasy, cola, lsd. Não é nenhuma novidade.

De minha parte, prefiro a viagem sóbria: ler um livro (leio hoje Palmeiras selvagens de Guilherme Faulkner), ver um filme (vejo hoje Metropolis de Fritz Lang), tocar e fazer um som – são coisas que permitem um contato com algo quase sobre-humano. Um toque no que não pode ser dito, digamos assim.

A grande contradição nisto é o álcool etílico. Bebo bem e constantemente há 11 anos.

Em minha infância e adolescência incutiram-me um grande medo a respeito das drogas ilegais, mas com o álcool (vinho e cerveja) a coisa foi diferente. Assim, não uso drogas tanto pelo medo primordial quanto por gostar de ter prazer com outras coisas (culturais, por assim dizer), com esta contradição.

Pelo menos é assim que me resolvi. Deve haver mais fundo.

O que ronda o interior e me assusta é a cocaína: vejo hoje amigos de infância, de criação (prefiro a palavra “criação” a “educação”, ao contrário da auto-ajuda inútil), cheirando pó quase todos os dias. Não me parecem felizes, não, usando a droga.

São os mesmos que com 18 anos atacavam viceralmente os que fumavam maconha, que repudiavam em sua certeza de criados em uma mentalidade de cidade pequena qualquer coisa que fugisse do padrão escola-faculdade-profissão estável-felicidade.

Como o trem do mundo, este ritmo quase-trinta-anos me assusta.

Entendo e não vou discriminar estes amigos, deixá-los de lado – o contato já pouco atualmente. Estou mais assustado que tudo e com medo. Um medo burguês? Pode ser. Sempre achei que mais vale a vida prazerosa que esta tentativa de prolongamento vã e inútil do mais viver deste começo de século.

À felicidade, desesperadamente.