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sobre cuspir abelhas africanas

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O tema é novamente a Copa do Mundo Fifa 2014 no Brasil.

 

Primeiramente, sempre que se fala sobre “Medida Provisória” deve ser dito que trata-se de mais uma invencionice brasileira (inspirada na Itália, ok) absurda e autoritária. Um expediente de exceção que se transformou num instrumento de despotismo (sim, temos um poder moderador).

Dito isso, é revoltante saber que o texto da MP 527 além de proporcionar às obras da Copa e da Olimpíada no Rio um “regime diferenciado” de contratações [RDC (!)] também fará com que estes gastos permaneçam sigilosos ao público. Para sempre.

A medida, se realmente aprovada, me parece inconstitucional por uns 29 ângulos diferentes.

Mas não é isto que importa aqui. Importa aqui ver como o PT que começou há algum tempo a ficar parecido com o PSDB transforma-se na ARENA cuspida e escarrada. Ou melhor, é uma ARENA intelectualizada e composta de alguns trabalhadores da grande São Paulo – uma ARENA que defende o segredo dos gastos públicos em 2011.

Deveríamos debater nestes dias medidas (como a Transparência Brasil e Contas abertas) para uma maior transparência, como é o portal da transparência do governo e como prometido por Lula. Não um sigilo vergonhoso.

Mas apenas para deixar claro: trata-se de uma medida com força de lei que beneficia empresas GIGANTESCAS do Brasil e do mundo: multinacionais que já têm dinheiro para comprar uma Ribeirão Preto e outra Fortaleza, entre prédios, vielas e almas.

Não vai beneficiar a ninguém a não ser gente muitíssimo poderosa ($$) e a própria Fifa.

O Itaquerão, a ser construído em um terreno público (!) com financiamento público pelo BNDES (!) e com recorde de isenção fiscal pela prefeitura (mais de 400 milhões de reais) (!) com uma tubulação pública da PETROBRAS embaixo é apenas uma amostra do que pretendem esconder os senhores da guerra do Brasil.

Senhores, aliás, comandados por uma senhora.

Por que não isentam de IPTU as padarias de Itaquera? Qual a diferença entre uma padaria e um estádio?

A ministra Ideli diz que críticas à falta de transparência não têm sentido. Que sem sentido é a “insegurança” de as obras não serem feitas sigilosamente.

Com licença: meu estoque de mágoas e desaforos que levo pra casa devem ser esquecidos para que eu masque um pouco das abelhas situadas ao lado de minhas cervejas.

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Entre o personalismo e o projeto

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Medo? Não é esta a palavra.

O país continuará crescendo sob vários aspectos, mesmo com uma pessoa sem história no poder. Entendo que na política não precisamos de gerentes, precisamos sim de políticos, com causas políticas, motivações políticas. Querem tecnicizar a política, do PSDB ao PT. E conseguiram: veja a drupa Alckmin e Dilma.

Assim, acho que ela fará um bom governo enquanto gerente, mas isto está muito, mas muito longe de ser representativamente bastante em termos políticos para o cargo de presidente da República. Falta a ela uma causa, e se esta causa não falta ao PT, basta dizer que ela não é do PT.

Dizem-me que ganhou o projeto petista.

Ora, é claro que o projeto foi importante e sob muitos aspectos bem sucedido, mas quem ganhou mais uma vez foi o coronelismo, o culto à personalidade de um homem assombrosamente popular: Lula.

Hoje meu sentimento é de esperança. Espero que o Brasil melhore, que mais gente saia da pobreza – entendo cada vez mais que o salário é o melhor meio de distribuição de renda, pelo menos depois de o indivíduo sair da condição de miserável.

(Esta é outra questão: a nação zumbi me dizia hoje que muitos entram no banditismo por necessidade. A saída deste estado de extrema necessidade é pressuposto para olharmos para uma série de estudos de economia – e é nesta direção que ruma o Brasil.)

Mas falta ao povo uma janela para o futuro, talvez representada pela Marina.

Por fim, digo que é no mínimo curioso alguns partidários de Lula contra argumentarem comigo como se o meu fosse um “choro de perdedor”. Esta miopia apenas enfraquece a trilha política.

 

breve comentário sobre as eleições em primeiro turno

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1 – Sobre a musiquinha de Aloysio Nunes.

Bem, não votei no Aloysio, votei na Marta, apesar de ter sido preconceituosa em relação ao Kassab (e me lembrei disto apenas depois do voto) e no Ricardo Young, porque seu nome evoca um certo frescor jovem.

Mas devo admitir que Aloysio Nunes conquistou uma SENHORA vitória para o senado paulista, já que nenhuma pesquisa sugeria minimamente sua eleição.

Para um candidato desconhecido pela maioria esmagadora da população e sem carisma a musiquinha ajudou muito, mas muito mesmo. Eu mesmo dizia que quando tocava no rádio era a melhor de todas dos candidatos, disparada.

Claro que, com isso, não tiro os méritos de Aloysio nem do PSDB paulista, que demonstrou grande força ontem em todos os níveis. -ps: elogiar não é ratificar.

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2. SEGUNDO TURNO

Parabéns à Marina Silva do PV. Pautou a eleição, deu a cara para bater e mostrou força, propostas e recepção disto pelo povo – é a MAIOR vencedora.

A mim me parece que a questão do aborto influenciou, mas a verdade é que o povo escolheu haver segundo turno. Este promete ser um dos mais quentes da história, se não o mais: Lula já foi embora, e Dilma pode ser atacada e tem que sair da sombra de Lula; Serra, por sua vez, tem que defender o governo FFHH – FHC.

Apesar de desejar fundar novo partido, Aécio Neves deve apoiar fortemente Serra, pois não é traíra e com Serra na presidência poderia ocupar um lugar de muito destaque na política nacional e no governo.

Serra teve apenas 34 por cento dos votos… Geraldo Alckmin, contra Lula, teve 41 por cento. Dilma deve ganhar, e sua campanha mostrou-se boa ao eleitorado em diversos aspectos.

Nenhum dos dois tem plano de governo.

Lula sai, ao contrário do que muito falam, muito vitorioso destas eleições, já que fez com que boa parte de seus aliados vencessem nos Estados tanto para o governo quanto para o Senado.

O DEM está definhando, apesar da importante vitória em Santa Catarina e Rio Grande do Norte, onde sempre foi muito forte.

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3. CENSURA E PESQUISAS

Por fim, deixo registrado que tive dois comentários censurados no site do jornalista Paulo Henrique Amorin : http://www.conversaafiada.com.br/brasil/2010/10/03/marina-e-marina-no-rio-levam-eleicao-para-o-segundo-turno/ .

Disse mais ou menos o que está acima escrito, e ainda que certos comentários eram golpistas por não aceitarem o voto nas urnas, num lugar em que todos acusam a imprensa de ser golpista – PIG, não sem razão, aliás.

PHA não aceitou ouvir algo que não fosse “bye bye Serra forever”. Gostaria de ouvi-lo por este ter escrito com todas as palavras em chamada de primeira página “DILMA ESTÁ ELEITA”. Gostaria de saber sua opinião agora  por ter acusado o Datafolha (“Datafalha”) de golpista, quando na verdade foi o único instituto que acertou o resultado.

Gostaria, por fim, que fosse comentada a pesquisa do Vox populi / Band  / IG, que dava Dilma com 53 por cento. Não estou acusando de nada, mas esta errou por muito, e era tida como a realmente séria —- ps – ainda acho o jornalismo da Band na tv o mais confiável.

Temos de abrir o olho: há nesta opinião um projeto de poder (Gewalt) a ser tocado sobre tudo e todos, e vejo, sim, o risco de um recrudescimento autoritário da política e dos direitos.

Assim, digo que ser de esquerda não tem nada a ver com apoiar gente da pseudo-esquerda, e se dizer de esquerda não quer dizer que não se faz parte da imprensa marrom.

a eleição é uma festa

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Vinha no meu carro, nos meus 40 minutos diários de purgatório auditivo, e era horário eleitoral gratuito (7 da matina).

Jurava que era uma festa. Com exceção do PCO, PSTU e PCB, os canditados se apresentavam com musiquinhas ridículas e falavam ao meu ouvido como se fosse uma criança, como super heróis que vieram para combater o mal.

Até entendo alguns, com exíguos segundos para falar, e que não podem fazer outra coisa senão:

“Sou Dr. Januário. Você que é artista e jovem, vote em mim”

ou

“Pela saúde, Dr. Januário 0980983”.

Mas tem uns que não dá pra suportar:

“Yuhhhuuu! Tá chegando a hora! Sou um apresentador de TV canastrão que só sabe fazer gincana. Por isso, vote no meu filho …”

ou

“OOiiiiiii galera! Sou um repórter de TV canastrão, e preciso do seu voto pra ser mais canastrão ainda em Brasília”

Sem contar aqueles que nada dizem, apenas pedem voto pro chefe:

“Sou Dr. Januário. Estou com Fulano, grande homem, grande pai e canditato a Führer de nosso país. Vote nele”.

ou pior:

“Olá, você já me conhece. Farei a mesma coisa que Cicrano fez. Quem me ensinou foi Mussolini”.

Há também os postes:

“Eu fui ministro de Sicrano, que mudou o país. Como ele não pode mais se candidatar, e como eu não tenho história pública, acabei de me filiar a este partido e ajo como um poodle treinado, vote em mim pensando nele, como você faz com sua mulher, com quem você transa pensando na Pamela Anderson”.

E tome musiquinha.

E  mais musiquinha.

O Tiririca pelo menos admite que é palhaço.

Pensando melhor, se for uma festa, tá mais pra Bacanal, orgia e putaria. Imaginem aqueles bigodudos dótôres de direito a se beijar e rolar pelos estúdios, produzindo dúzias de novos politicozinhos, tudo ao som da cavalgada das Valquírias.

sobre 18 de Brumário de Louis Bonaparte

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Marx pelo der Spiegel

Duas vezes

Meu amigo Karl me disse anteontem que os grandes fatos e personagens históricos aparecem duas vezes na história: a primeira como uma grande tragédia e a segunda como uma farsa rota, miserável. (a tradução portuguesa retira os adjetivos).

Marx escrevia muito bem. O dezoito de brumário e a ideologia alemã, em especial, são muito gostosos de ler. Naquele, o bonapartismo é bem analisado. O velho barbudo não tinha nenhuma simpatia por reizinhos.

A provacação é, desculpem me, óbvia: Lula pode não ter sido uma tragédia, mas aquela-que-se-apresenta-como-a-grande-sucessora não seria uma farsa esfarrapada?

Bom, não, porque os personagens não são sequer comparáveis. Ou será Lula já uma reedição de algo, tipo Getúlio? E Getúlio, de quem? Mussolini? E Mussolini? de Dante? Virgílio?

Falando sério, cito aqui Marx por dois motivos:

1- Ele não foi um imbecil maniqueísta, como é hoje uma boa parte da esquerda do Brasil: neste livro ele mostra como a burguesia é capaz de se moldar a diferentes regimes e lideranças para manter o poder.

2 – Karl teve o poder de analisar muito bem uma situação que acontecia aos seus olhos, e, dessa forma, é mostra de como pode ser um intelectual: com bagagem, rigor e estudo, sim, mas também pensando o presente.

“Hegel bemerkt irgendwo, daß alle großen weltgeschichtlichen Thatsachen und Personen sich so zu sagen zweimal ereignen. Er hat vergessen hinzuzufügen: das eine Mal als große Tragödie, das andre Mal als lumpige Farce”

Para a Carta Capital, e para Mino Carta: sobre as eleições de 2010 e a cobertura desta revista.

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Talvez isto seja movido pela forma como se faz política tradicionalmente. Não há como dar muitas razões a um grupo ou a um outro de forma ponderada. Na política nós temos de nos posicionar e esquecer as diferenças em prol de algo mais importante que nos una. Talvez por este motivo eu tenha enveredado na carreira acadêmica e não política – não consigo ser tão raso.

Uma revista, ou um meio de comunicação, por outro lado, apresenta uma característica sui generis: ao mesmo tempo em que  deve posicionar-se politicamente em uma eleição em prol de um partido ou outro, visto que é impossível a imparcialidade absoluta, deve também mostrar-nos uma versão equilibrada do que acontece.

Entendo que o equilíbrio de Carta Capital está se perdendo. A maioria das matérias é por demasia tendenciosa politicamente, e acho que isto se deve a uma confusão entre a polarização observada na luta política e a respeito do papel da imprensa. Digo isto na qualidade de assinante por quatro anos e leitor de banca há uns três anos, o que, se não é mérito algum, possibilita que eu fale sabendo um pouco da história da revista.

Veja: com estas ponderações não digo que votarei em Serra. Ainda não me decidi, pois nem temos todos os pré-candidatos enfileirados. Não estou falando disso.

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Erros cometidos por Carta Capital até o momento (final de abril).

1 – Achar que os jornalões estão contra Dilma assim como estavam contra Lula em 1989.

Não é bem assim. Claro que o candidato dos jornais e televisões é Serra, mas vocês parecem esquecer do gosto de alguns veículos em estar perto do poder (nas mãos do PT), a fim de se beneficiar com somas, por exemplo, do BNDES. O fisiologismo e o coronelismo são marcas da formação política do Brasil ainda muito presentes.

2 – Achar que o PT é de esquerda, e supor que o PT e o PSDB são partidos tão diferentes no espectro eleitoral.

Pelo menos a parcela do partido dos trabalhadores que está no poder atualmente não pode ser enquadrada como esquerda – talvez, no máximo, como centro, se é que isto existe. Nesta parte, o Plínio de Arruda Sampaio, na entrevista à própria Carta, está mais que correto.

3 – Achar que o discurso do medo é exclusividade da Direita.

O medo da mudança é o que Dilma e o PT defendem. Vejam só como é a história: o partido dos trabalhadores é o atual partido do continuísmo, do “tudo está bem”, do “não precisamos mudar”, do “Brasil tem que seguir neste rumo”, do “se mudar estraga, será uma hecatombe”. Como os tucanos da década de 1990.

4 – Achar que Dilma não é um poste de Lula.

Dilma não tem a história dentro do partido dos trabalhadores e não tem história enquanto personagem público para assumir a presidência do Brasil. Embora Lula não tivesse ocupado nenhum cargo executivo antes da eleição de 2002, conhecíamos bem Lula por militar há décadas no Brasil. Dilma pode ter méritos, mas é uma grande incógnita: surgiu para nós há quantos anos? 5 anos, talvez, substituindo o José Dirceu. E outra: não precisamos de um gerentão.