Assinatura RSS

Arquivo da tag: certa manhã

sobre o otto, novamente

Publicado em


Ninguém tinha dinheiro pra ir ver o Jorge Ben, ontem. Assim…

Ontem tive uma ótima noite: vinho, amigos em casa, filhos rodeando, uma mulher maravilhosa, e mais vinho.

Eu tenho meu espelho cristalino que uma baiana me mandou de Maceió.

Um dos álbuns que ouvimos foi o do Otto, que a Giu disse que adora. Lembrei que outro dia cheguei em são paulo, fui comer na padoca de sempre, e ouvi uma música deste último álbum na novela.

Olha, o disco é triste demais pra qualquer novela. Mas tudo bem, não lembrava nem que música era. Falamos de novelas e das músicas, e o entendimento foi de que não há nada de mais em se ter uma música na novela, desde que o foco principal não seja aquele, ou seja, de que a música seja feita para-tocar-na-novela.

Ao ouvir novamente o cd, percebi: era “há sempre um lado que pese, outro lado que flutue”.

É “crua”, a música de abertura. Acontece que a coisa ficou esquisita, pois o Otto usa o verbo “foder” na letra. Acho que foder não é palavrão, mas seria considerada palavra no mínimo ofensiva aos ouvidos da Grobo.

Fui pesquisar no gúgol e…

O Otto trocou a palavra “fodia” por “podia” pra-tocar-na-novela.

Sei que o cara tem que ganhar sua grana, que quer ser ouvido, que não se pode simplesmente desprezar a audiência novelística como um bando de imbecis…. mas….

Mudar letra de música linda vale?

Bem, acho que o pernambucano trocou os pés pelas mãos e fudeu a música (discurpa, tava no ar a piadita).

Anúncios

Macunaíma em um quarto escuro

Publicado em
OTTO

Certa manhã acordei de sonhos intranquilos

Após seis anos de silêncio e tentativa de desvencilhamento das drogas, e após a separação com a mulher Alessandra e a morte da mãe, surge o disco de Otto “Certa manhã acordei de sonhos intranquilos”, lançado sem a gravadora Trama, com a qual rompeu. Pelo que li, foi lançado na gringolândia primeiro, e só depois de seis meses aqui nestes tristes trópicos.

Acho que tenho um problema, neste e no outro blog, com elogios. Sou desses caras chatos, que raramente gostam bastante de alguma coisa e desprezam solenemente a maioria das bobagens que tanto fazem a cabeça de boa parte da comunidade da blogsfera em geral, como o seriado Lost, um Ipad (?) e um livro de Paulo Coelho. Quando gosto de algo, por outro lado, gosto mesmo.

O álbum de Otto está demais. É o melhor que ouço da produção nacional em anos. É um álbum repleto de sinceros desabafos, acoplado a uma sonoridade atrás da melancolia que dá o ritmo do disco que é de muita qualidade. Ouvem-se tambores (vê “Agora sim”), ouvem-se metais bem conduzidos (vê “Janaína”), batidas eletrônicas (vê “Meu mundo”), ouvem-se guitarras dos anos de 1970 (“6 minutos”), ouve-se um sotaque mexicano de Julieta Venegas em “lágrimas negras”….

É tanta coisa ao mesmo tempo que se pode afirmar que o álbum não tem caráter. É como vejo, mesmo: um álbum sem caráter, e este molho faz um Macunaíma da recente cultura tupiniquim.

As composições (até para morrer você tem que existir … mas eu te juro, são flores de um longo inverno… isto é pra morrer – seis minutos) são maduras. Otto é um maluco maduro. Ser maduro não significa ser chato, não significa ser velho, não significa que o sujeito está emocionalmente estabilizado, não tem praticamente nenhuma diferença com ser um imbecil feliz de 17 anos (como eu era), a não ser uma: você faz a maioria das coisas já sabendo das consequências, você já consegue organizar melhor suas loucuras porquê você está há muito tempo com você mesmo.

Minha música preferida é “6 minutos”: Otto é autêntico e sincero; é um artista, mesmo, desses que teriam muitos cânceres se não cantassem e que preferem desafinar a não cantar. Nesta música a culpa não é da outra pessoa, mas as promessas que se faz de alguma maneira estão com o teve a promessa.

10 faixas primorosas. Tem até “naquela mesa”, com um quê de brega: eu não sabia que doía tanto, tanto.

É triste, sem dúvida, é pra baixo, sem dúvida, e o canto do quarto escuro de otto não parece que será facilmente iluminado. A música é sua terapia, e espero que esteja melhor agora.

Franz Kafka é adequado, realmente. Os sonhos intranquilos da metamorfose transformam não a lagarta numa borboleta, mas um homem em uma barata. A diferença, aqui, é proporcionada pela música, pela arte: o sujeito é obrigado a sair do quarto de hotel para expor suas melodias. O outro caminho, único outro caminho admissível, seria o suicídio.