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Arquivo da categoria: música

sobre Tinariwen

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E sobre a mundialização

sobre morrer todos os dias – Amy Winehouse

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A NORMAL DAY FOR BRIAN

(PETE TOWNSHEND)

I used to play my guitar as a kid
Wishing that I could be like him
But today I changed my mind
I decided that I don’t want to die
But it was a normal day for Brian
Rock and Roll’s that way
It was a normal day for Brian
A man who died every day.

amy winehouse alive

amy winehouse viva

Morrer todos os dias é algo normal para os seres humanos. Ora, a cada dia boa parte de nossas células se vão e outras nascem, mas o saldo é para a morte.

É a morte que dá sentido mínimo à vida. Os vampiros, os lobisomens e os outros deuses que pegavam as humanas no Gênesis não sabem o que é isso. Se houver deus, ele mesmo não sabe o que é o tempo.

Entender que estamos juntos “até que a morte nos separe” é uma das poucas coisas que ouvimos de decência em um casamento. Seremos até não sermos mais nada e, assim, somos um ser para o nada, como dizia aquele alemão.

Vale mesmo a pena o modo pelo qual vivemos, os objetivos de vida. O que faremos. Um fim de semana em casa vendo televisão é uma boa receita para tentar apagar a certeza da morte, este tabu nos tempos imediatos, em tempos em que o momento é tão vital que o correr do tempo possui muito pouca importância.

O que essa moça fez foi excelente. Sem viver desesperadamente, sem morrer muito a cada hora, ou seja, se vivesse feito uma burguesa que assiste a três novelas diárias, estaria provavelmente vivinha. Viva e mais podre que agora como todos.

O papo anti-substâncias-que-fazem-mal-ao-corpo-burguês é dos mais imbecis e conservadores, neste específico caso. Quando se gosta de alguém ou de sua arte não se separa seu corpo como se separa as peças de um motor de um carro.

O corpo de Amy é o corpo que fez “back to black” e “Frank”, e não “outra” Amy.

Seu corpo era seu: um corpo faminto, vermelho, pintado e encharcado.

sobre o quinto postulado

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Lendo Euclides (http://www.mat.uc.pt/~jaimecs/euclid/elem.html), vejo que ele apontou apenas três postulados no primeiro livro. Os chamados quarto e quintos postulados de Euclides podem até mesmo serem postulados, mas estão reunidos em sua obra sob a denominação de “axiomas”.

Um postulado é um tipo de migué acadêmico. O professor chega para o aluno e manda: “acredite em mim, tome este líquido por groselha” ou “isto é groselha, por que eu digo que é, tamos fechados?”.

Euclides fala assim para os ignorantes como eu: “Pede-se como cousa possivel” que isto seja assim e assado.

Um axioma é no pensamento euclidiano uma verdade evidente, que não necessita de demonstração. Ilustração: “ô imbecil, não é muito evidente que o vermelho é vermelho?”

O chamado “quinto postulado” (reunido entre os “axiomas”, como dito) não é bem um axioma, é verdade, e muitos pensadores quebraram a cabeça para comprová-lo. Não interessa dizer do que se trata este axioma, mas apenas que a geometria possuiu uma direção diferente da de Euclides apenas quanto puderam a um só tempo comprovar este axioma e substituí-lo por um outro postulado, entendo por interpretarem no axioma das paralelas um postulado.

Há uma explicação: “postulado” e “axioma” hoje são tidos como termos idênticos, já que as teorizações são sempre discursos sobre o que querem nos convencer – a “evidência” axiomática é bastante relativizada, portanto.

Proteja-me Deus dos axiomas e postulados.

sobre o pianista

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uma cortina vermelha, um terno café. Frio desgraçado, piano preto e gosto de amora na boca.

(    )

O pianista zagueia só sua mão esquerda – faz

silêncio.

toca grave – toca sombra

tristeza jeca de um

[este ouviu]

outro criado

aqui fazer silêncio em um

piano

de calda por toda madeira

da sala para 100.

dez segundos entre a última nota e (os aplausos a estragar o que restou

da música

da madeira

da sombra).

(desenho dado e dedicado a André Mehmari)

Sobre o processo estético

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Não importa realmente se criar o estético é o que nos diferencia das bestas.

Importa a criação, este quase contato com o indizível que este blog inspirado num austríaco vira e mexe aponta.

Ainda não consegui articular um livro (fora a parte acadêmica), apenas contos. Talvez não seja capaz disto.

Poesias, por outro lado, tenho muitas. Escrevi neste ano um monte. Talvez devesse publicá-las.

Estas poesias surgem muito estranhamente, em momentos absolutamente não poéticos, ou aparentemente sem poesia. É repentino, raivoso como um raio.

A criação musical com a banda, no entanto, articula-se em inúmeros ensaios, os quais fazem com que se perca um pouco daquela espontaneidade inicial da música, o momento em que vagamente se observa um novo som com os ouvidos.

Talvez a melhor forma seja a espontânea, a desarticulada, a que revela o belo no primeiro momento.

Quem concordaria com isso, num tempo de extrema profissionalização e técnica, num tempo em que ou se é digital (1/0, escuro ou não escuro, verdade ou não verdade), ou não se é?

Como disse o outro, entre a dor e o nada, fico com a dor.

Entre o momento e a busca incessante de reduzir o momento ao esperado, ao padrão, ao plano, a Descartes, fico com o momento.

Quem concordaria comigo? Só o Bob, o Dylan.

o medo – die Angst – the fear – el miedo

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=

medo – fear – miedo – Angst – farhåga – ansia.

Como trocar as cordas de um violão

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É um ritual dos mais interessantes.

Ganhei meu primeiro violão, um Di Giorgio 16, quando tinha 12 anos (1994). Não comi nada no Natal de birra, pois meu pai havia prometido que me daria e, como de costume, não o fez. Depois da greve de fome, do choro e etc., meu tio comprou o violão, e fingi que acreditei que tinha sido meu pai.

No começo, quando trocava as cordas guardava as antigas de recordação, e depois de uns dois anos achava num armário velho. Escolhia muito bem qual seria a primeira música a ser tocada com as corda novas – achava que a origem da música nas cordas orientaria o sucesso ou o fracasso da temporada com aquelas cordas, até que elas oxidassem e precisassem ser trocadas.

Nunca gostei, porém, de trocar cordas.

Gosto apenas de retirar as cordas e ver meu violão nu, como uma mulher nua em uma cama, aparentemente desamparada. Pego o violão e há 16 anos procedo os seguintes passos:

1 – Violão nu, uma limpadinha pra tirar o pó.

2 – Passo lustra-móveis.

3 – Deixo o violão de lado, absorvendo o produto.

4 – Escolho o pano mais macio da casa – geralmente as flanelas não estão adequadamente macias.

5 – Lustro.

6 – Seco, Passo óleo de peroba.

Aqui é a etapa mais interessante. O óleo de peroba é feito, segundo me ensinaram, apenas para madeira maciça – para compensados, mdf e etc. é inútil. O violão bom ganha outros rasgos e nervuras típicos de madeira, e renasce.

7 – Quando posso, deixo o violão amanhecer com o óleo de peroba, ou pelo menos algumas horas bebendo do óleo.

8 – Lustro com aquele mesmo paninho, geralmente de roupa de algodão velha.

9 – (A pior parte) Coloco as cordas.

10 – Sempre erro alguma coisa nesta etapa.

11 – O telefone me dá um lá. Afino a corda lá, que desafina, e torno a pegar o telefone. Repito isto por uma hora, mais ou menos, até o violão e os trastes acostumarem-se à nova tensão.

As três cordas mais agudas (sol, si e mi) são as que mais dão trabalho.

Gosto de Augustine Blue ou de Hannabach. Não gosto das D’addario.

Toco minha viola.

—– PS: A primeira música hoje, com o novo encordoamento Augustine Blue (Regals) foi “Pale blue eyes” – poucas e boas notas, um pouco de melancolia, vendo Palermo Shooting, de Win Wenders.

viola

novas cordas