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Arquivo da categoria: ciência

Sobre a Pessoa do imperador

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Art. 99. A Pessoa do Imperador é inviolavel, e Sagrada: Elle não está sujeito a responsabilidade alguma.

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 Assim dizia (opa, perdão, dispunha) a Constituição do Brasil de 1824.
Era ali claro: o poder moderador era “do cara”, e era sagrado.
A constituição de 1824 é muito interessante. E das coisas mais interessantes é vermos que ainda estamos na mesma merda, para usar uma palavra academicamente gaulesa.
Temos este ranço autoritarista de vermos no Executivo o grande chefe, e isto não se resume aos prefeitos, governadores e presidente. O chefe, o gerente, o coordenador, etc., são vistos por muitos como invioláveis e “os caras” da respectiva instituição.
Muitos chefes, bem que se diga, também gostam muito de ser “os caras”, a cabeça do livro de Hobbes.
E só para falar mais da constituição do império, diga-se que não há nem uma linha sequer sobre a escravidão.
É o silêncio perturbador, é o grito silencioso, é o espectro que ainda ronda o Brasil – para 1988, ninguém passa fome.
É constituição bonita, bem articulada. Parece francesa. Mas tem o poder moderador estampado, e não há nem sinal do tráfico e da brutal exploração dos africanos.
Veja: em tempos de perseguição brutal, era assegurada a liberdade de culto:
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        Art. 5. A Religião Catholica Apostolica Romana continuará a ser a Religião do Imperio. Todas as outras Religiões serão permitidas com seu culto domestico, ou particular em casas para isso destinadas, sem fórma alguma exterior do Templo.

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 Data de nossa primeira constituição a cara de pau e a peroba constitucional brasileiras. Não apenas dos políticos, diga-se.
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Quem come quem?

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quem come?

A língua portuguesa é gentil com o verbo “comer”.

O sentido não é apenas o da alimentação de homens e animais – há línguas em que em relação aos animais não se usa o mesmo verbo que o dos humanos quando aqueles “comem”.

O desgaste de uma barra de metal é sinal que está “comida” – “uma lima come o ferro”; transar é “comer” —- embora neste caso não dê para saber quem come quem, apesar do uso machista do termo – poderia se sugerir uma alusão menos física e mais lúdica: em uma transa, quem possui o outro o come: “I once had a girl, or should I say, she once had me”.

Quando se gasta em excesso, “come-se” o dinheiro; “come-se” o tempo: “comi cada segundo de minha vida”.

A seca, por seu turno, pôde “comer” todos as pessoas em 1915.

Há também o sentido de experimentar: “desse fruto não como”, me diz o Houaiss.

Em um jogo, come-se o peão e a rainha.

Nos jogos do Palmeiras, a incompetência come solta.

(E na foto acima, acredite, quem come é a larva e não o anfíbio): http://www.wired.com/wiredscience/2011/09/epomis-beetle-amphibians

Sobre as águas subindo

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Michelangelo Buonarotti

a embriaguez de Noé

 

Já vi e trafeguei mais de uma vez em grandes cheias de rios – Paraná, Parnaíba, Pardo. O volume de água é impressionante. Olha-se para qualquer canto e parece realmente que se está no mar e no nada, voando sobre o desconhecido escondido por um espelho.

 

É um convite à reflexão sobre a morte e a vida, sobre os ciclos e sobre a caoticidade desequilibrada do mundo.

 

Não à toa, vários contos surgiram do rio com (ou não) suas enchentes. A terceira margem do rio, Palmeiras Selvagens (ou “o velho”) e, obviamente, a bíblia  – mais para uma imensa enchente que cheia fluvial. É provável que a confluência de vários destes antigos mitos sobre inundações (como na referência encontrada na epopéia – sic – de Gilgamesh), dos quais o Gênesis narra um deles, tenha origem em cheias e enchentes reais, devastadoras à princípio, mas que foram insuficientes para matar toda vida humana.

 

(E o que mais me espantou em todo livro do Gênesis é o fato de Noé (Utnapishtim?), o mais valioso dos homens, o único a ser salvo do dilúvio, ter condenado um filho e neto seus à escravidão por aquele ter avisado seus outros irmãos de que o pai (Ziusudra?) estava completamente embriagado e dando vexame – veja, os hebreus têm em Canaã a terra prometida, e Canaã é o neto amaldiçoado à escravidão como o próprio pai Cam)
 

 

O fato de as civilizações começarem ou estabelecerem-se perto da água possui uma explicação bastante material – a sobrevivência em lugares de alimento abundante ou mais propícios à agricultura, como o delta do Nilo, o lago Titicaca e a Mesopotâmia.

A maneira a qual a água está em nosso inconsciente e em nossa programação genética, em nossa história natural, por outro e pelo mesmo lado, é algo absolutamente fascinante.

Nasci no direito e, assim, não sei das águas.

 

 

sobre o quinto postulado

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Lendo Euclides (http://www.mat.uc.pt/~jaimecs/euclid/elem.html), vejo que ele apontou apenas três postulados no primeiro livro. Os chamados quarto e quintos postulados de Euclides podem até mesmo serem postulados, mas estão reunidos em sua obra sob a denominação de “axiomas”.

Um postulado é um tipo de migué acadêmico. O professor chega para o aluno e manda: “acredite em mim, tome este líquido por groselha” ou “isto é groselha, por que eu digo que é, tamos fechados?”.

Euclides fala assim para os ignorantes como eu: “Pede-se como cousa possivel” que isto seja assim e assado.

Um axioma é no pensamento euclidiano uma verdade evidente, que não necessita de demonstração. Ilustração: “ô imbecil, não é muito evidente que o vermelho é vermelho?”

O chamado “quinto postulado” (reunido entre os “axiomas”, como dito) não é bem um axioma, é verdade, e muitos pensadores quebraram a cabeça para comprová-lo. Não interessa dizer do que se trata este axioma, mas apenas que a geometria possuiu uma direção diferente da de Euclides apenas quanto puderam a um só tempo comprovar este axioma e substituí-lo por um outro postulado, entendo por interpretarem no axioma das paralelas um postulado.

Há uma explicação: “postulado” e “axioma” hoje são tidos como termos idênticos, já que as teorizações são sempre discursos sobre o que querem nos convencer – a “evidência” axiomática é bastante relativizada, portanto.

Proteja-me Deus dos axiomas e postulados.

sobre o que aparece

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o poeta pobre - Spitzweg

o pobre poeta - Spitzweg

Sei que é comum, mas houve um dia em que o estudo parecia-me absolutamente entediante. Não conseguia, no meio de minha loucura com chuva de cinzas de cana, ver sentido em sentar em uma cadeira e estudar.

 

Estudo para compreender melhor meu mundo. Existem outras formas de se compreender o mundo, eu sei, mas minha aptidão dirigiu-se para o mar dos que não têm muito talento, mas sim muita vontade e paciência (o que faz urgir dezenas de almofadas de cadeira).

O tempo do estudo é lento, bem lento. A pressa é inimiga desta lentidão.

Simon Bolívar queria a união dos povos latino-americanos ou queria uma revolução francesa macaqueada em uma terra imensa povoada por escravos da África e índios da America? Não foi ele mais um a querer europeizar?

Bem, isto não é uma afirmativa: é uma pergunta. O apressado talvez parasse na primeira frase.

O tempo é a única diferença de quando se escreve algo acadêmico  – mas um velho analfabeto não possuiu este tempo? E este analfabeto não conta oralmente de forma bela seu tempo? Não possuiu, em verdade, outro tempo, já que sua língua não é a mesma que a minha e, assim, sua realidade é outra?

Ok, não sei qual é a diferença.

 

Acho que vou pro doutorado, para poder não saber mais ainda ou descobrir porra nenhuma – sei só que o mundo dá uma mexidinha quando a gente se comunica.

 

sobre a defesa de mestrado

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Herói

 

Regressa da Europa Doutor Oliveira

É dia de festa na cidade inteira

Doutor Oliveira fez longa viagem.
Maior, mais brilhante ficou sua imagem.

Viajou de cavalo, de trem, de navio.
Foi bravo, foi forte, venceu desafio.

Falou língua estranja, que não percebemos.
Ergueu nosso nome a pontos extremos.

Conversou doutores de barbas sorbônicas
e viu catedrais, jóias arquitetônicas.

Papou iguarias jamais igualadas
nas jantas mais finas: consommés, saladas,

ovas de esturjão, e pratos mil flambantes,
que aqui falecemos sem conhecer antes.

Praticou mulheres das mais perigosas,
ofertou-lhes mimos, madrigais e rosas.

Nenhuma o prendeu entre grades de seda.
Volta o nosso amigo, livre, de alma leda.

Tudo há de contar-nos à luz do lampião,
para nosso pasmo e nossa ilustração.

Depressa, cavalos e arreios de prata,
que vai esperá-lo o povo bom, a nata.

Da cidade às portas, como triunfador,
eis chega Oliveira, preclaro doutor.

Ginetes aos centos correm a saudá-lo.
Foguetes, discursos e até o abalo

de tiros festivos no azul eta nós!
dados por Janjão e por Tatau Queirós.

Pois quem destes matos foi até Paris
honrou nossa terra, deu-lhe mais verniz.

E assim, ao apear, desembarca na História
Doutor Oliveira, para nossa glória.

(Carlos Drummond de Andrade)

Como a ironia fina não é meu forte, deixo-a expressa.

sobre a identidade

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musei vaticani - (má) foto nossa

No dia de minha qualificação, deixo três exemplos sobre o princípio da identidade, fundamental à Lógica Clássica:

Aristóteles: “α=α” ou “a=b=c … a=c”

Gertrude Stein: “Rose is a rose is a rose is a rose”

Dito: “uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa”.

Mano Brown: “Homem é homem, mulher é mulher. Estuprador é diferente, né?”